que contavam,
histórias de batalha, de cama e de caça. Tinha certeza de que
os companheiros eram mais divertidos do que a prole do rei.
Saciou sua curiosidade a respeito dos visitantes quando estes
entraram. A procissão passara a não mais de um pé do local
que lhe fora atribuído no banco, e Jon deitara um forte e
demorado olhar em todos eles.
O senhor seu pai viera à frente, acompanhando a rainha. Ela
era tão bela como os homens diziam. Uma tiara cravejada de
jóias brilhava entre os seus longos cabelos dourados, e as
esmeraldas que continha combinavam perfeitamente com o
verde de seus olhos. O pai de Jon a ajudou a subir os degraus
que levavam ao tablado e indicou-lhe o caminho até seu
lugar, mas a rainha nunca chegou sequer a olhar para ele.
Mesmo com catorze anos, Jon era capaz de ver para lá do seu
sorriso.
A seguir veio o próprio Rei Robert, trazendo a Senhora Stark
pelo braço. O rei foi uma grande desilusão para Jon. O pai
falara dele com frequência: o inigualável Robert Baratheon,
demônio do Tridente, o mais feroz guerreiro do reino, um
gigante entre os príncipes. Jon viu apenas um homem gordo,
com o rosto vermelho sob a barba, transpirando através de
suas sedas. Caminhava como um homem meio embriagado.
Depois vieram os filhos. Primeiro o pequeno Rickon,
dominando a longa caminhada com toda a dignidade que um
rapazinho de três anos era capaz de reunir. Jon teve de
incentivá-lo a seguir quando parou ao seu lado. Logo atrás
veio Robb, vestido de lã cinzenta ornamentada de branco, as
cores dos Stark. Trazia pelo braço a Princesa Myrcella. Era
uma pequena menina, com quase oito anos, o cabelo feito
uma cascata de caracóis dourados sob uma rede cravejada de
jóias, on reparou nos olhares acanhados que ela dirigia a
Robb enquanto passavam por entre as mesas e no modo
tímido como lhe sorria. Decidiu que a menina era insípida.
Robb nem tinha o bom--senso de notar quão estúpida ela era,
e sorria como um tolo.
Suas meias-irmãs acompanhavam os príncipes reais. Arya
tinha como par o roliço jovem iommen, cujos cabelos louro-
esbranquiçados eram mais longos que os dela. Sansa, dois
anos mais velha, puxava o príncipe real, Joffrey Baratheon.
Ele tinha doze anos, menos que Jon ou _-\obb, mas era mais
alto que qualquer um deles, para sua grande frustração.
Príncipe Joffrey tinha os cabelos da irmã e os profundos olhos
verdes da mãe. Uma espessa mata de caracóis louros caía para
lá de sua gargantilha dourada e da alta gola de veludo. Sansa
parecia radiante enquanto caminhava a seu lado, mas Jon
não gostou dos lábios mal-humorados de Joffrey nem do
modo aborrecido e desdenhoso com que avaliou o Salão
Grande de Winterfell.
Interessou-lhe mais o par que veio a seguir: os irmãos da
rainha, os Lannister de Rochedo Casterly. O Leão e o
Duende; não havia forma de confundi-los. Sor Jaime
Lannister era gêmeo oa Rainha Cersei; alto e dourado, com
flamejantes olhos verdes e um sorriso que cortava como uma
faca. Trajava seda carmesim, botas negras de cano alto, um
manto de cetim negro. No peito da túnica, o leão de sua Casa
estava bordado em fio de ouro, rugindo em desafio.
Chamavam-lhe Leão de Lannister na sua presença e
"Regicida" às suas costas.
Jon sentiu dificuldade em desviar o olhar do homem. É este o
aspecto que um rei deve ter, pensou consigo mesmo quando o
príncipe passou por ele.
Então viu o outro, bamboleando ao lado do irmão, meio
escondido pelo seu corpo. Tyrion Lannister, o mais novo dos
filhos de Lorde Tywin e de longe o mais feio. Tudo o que os
deuses tinham dado a Cersei e Jaime negaram a Tyrion. Era
um anão, com metade da altura do irmão, .utando para
acompanhar seu passo sobre pernas atrofiadas. A cabeça era
grande demais para o corpo, com uma cara animalesca
esborrachada por baixo de uma sobrancelha saliente. Um
olho verde e um negro espreitavam sob uma cascata de
cabelos corredios e tão louros que pareciam brancos. Jon o
observou fascinado.
O último dos grandes senhores a entrar foi seu tio, Benjen
Stark, da Patrulha da Noite, e o protegido do pai, o jovem
Theon Greyjoy. Benjen dirigiu a Jon um sorriso caloroso
quando passou por ele. Theon o ignorou por completo, mas
nisso nada havia de novo. Depois de todos se terem sentado,
foram feitos brindes, dados e devolvidos agradecimentos e,
então, deu-se início ao festim.
Jon começara a beber nesse momento e ainda não parara.
Algo roçou sua perna sob a mesa. Ele viu olhos vermelhos que
o encaravam.
- Outra vez com fome? - perguntou. Ainda havia meia galinha
com mel no centro da mesa. Jon esticou o braço para arrancar
uma perna, mas depois teve uma ideia melhor. Espetou uma
faca na ave inteira e a deixou escorregar para o chão por entre
as pernas. Fantasma a atacou em silêncio selvagem. Não
tinham permitido aos irmãos e irmãs que trouxessem seus
lobos para o banquete, mas naquela ponta do salão havia
mais rafeiros do que Jon conseguia contar, e ninguém dissera
uma palavra sobre seu cachorro. Disse a si próprio que
também nisto era afortunado.
Seus olhos ardiam. Jon os